2 de abr de 2009

Tenho medo é dessa gente


Em uma das viagens à praia, eu e uma amiga conhecemos um hippie, o Joãozinho. Um garoto bem jovem, de uns 22 anos, nascido no Rio de Janeiro, porém, como um hippie que se preze, ele era mesmo um cidadão do mundo.

De estatura pequena e um sorriso enorme que evidenciava dentes perfeitos (pra quem acha que hippie não escova os dentes, ele escovava, eu vi), Joãozinho foi o primeiro e único ser humano desconhecido que me pediu carona e eu dei. Estávamos em Ubatuba/SP e seguiríamos de carro até a Vila de Trindade, uma concentração de belíssimas praias localizadas em Paraty/RJ. Quando o jovem ficou sabendo de nosso destino, abriu um largo sorriso e pediu: – Ei garotas posso ir com vocês?

Eu e minha amiga trocamos olhares, tentando encontrar algum sinal de desaprovação uma na outra, mas como isso não aconteceu, logo estava Joãozinho, cujo nome ainda nem sabíamos, sentado no banco traseiro do meu carro, feliz da vida por estar indo àquele paraíso, ao encontro de seus semelhantes. Quem conhece Trindade sabe do que estou falando.

Tento até hoje entender o que me fez aceitar uma proposta tão insegura e cheguei à conclusão de que pessoas “diferentes” me passam mais confiança do que as “normais”. Também, no mundo em que vivemos, com tanta hipocrisia - estranho é ser normal.

É gente pregando isso e fazendo aquilo. Gente frustrada que não gosta do que faz, mas faz por necessidade. Gente que veste bata e “come criancinhas”. Gente que é eleita pelo povo e depois engana o próprio eleitor. Gente que esquece as promessas que fez. Gente que coloca filho no mundo, mas não pensa em preservar o planeta para as próximas gerações. Gente que abandona seu animal de estimação quando ele está velhinho e precisando de cuidados.

Tenho medo é dessa gente! Ela me confunde, me irrita, me enoja. Ainda mais quando vejo gente ensinando o filho a desprezar homossexual, a desrespeitar os avós em suas limitações físicas, a humilhar os mais pobres que não possuem os mesmos bens.

Vivo de medo é de gente que vai à igreja e prefere ver o mundo contaminado pelo vírus da AIDS a aceitar a propagação do uso de preservativos no combate à doença. Com Joãozinho aprendi que não pertenço ao grupo dos “normais”, sou mesmo é do lado dos “diferentes”.

E no final da viagem, para não perder contato com uma pessoa tão especial, minha amiga pediu o e-mail do jovem hippie. Com toda a espontaneidade de quem é acostumado à liberdade e desprendimento, o garoto explicou que o grande barato da vida é o acaso: - Um dia, se tivermos que nos encontrar novamente, certamente isso acontecerá.

E assim, o diferente seguiu seu caminho pelo mundo. Livre de preconceitos, de imposições e limitações. Carregando uma mochila com uma barraca, uma troca de roupa e muitas histórias vividas com gente estranha.

3 comentários:

.ju das candongas. disse...

Que lindissimo Sandra...
Bem.. eu acho queeu nunca fui do grupo dos normais neh O.o rs e acho que esse eh dos textos daqui o que mais me identifico (nem sei pq neh!rs)...mas linda história... realmente a gente da qual temos que ter medo eh outra.. normlmente uma gente engravatada, enjalecada, embatinada.. essa gente eh que dá medo!
Saudades
Beijos.
.ju.

Felipe Voigt disse...

Vcs só deram carona pq acharam o cara bonitinho. E no fundo, uma das duas queria dar uns pega no pobre rapaz. Certeza...

Sandra Alves disse...

Hahahahaha

Claro né Felipe que esse comentário só podia vir de vc.
Nem vou comentar...