27 de jan de 2009

Os meninos que não faziam nada


“O que fazem as pessoas que não fazem nada?” – pensava ela sempre que passava por aquele caminho e via aqueles jovens sentados naquele banco, no mesmo ponto de ônibus, sem esperar pelo ônibus. Na verdade, aqueles meninos pareciam não esperar por nada da vida.

Enquanto isso, ela corria desde cedo. Acordava às 6h30, tomava seu café e se preparava para o longo dia de trabalho e estudos que a aguardava. Às 17h30 terminava seu expediente na empresa e ela voltava para casa apressada, porque logo mais, às 19h, começaria sua outra jornada, a dos estudos. Nos dias em que surgiam problemas no trabalho e ela saía mais tarde, tinha que escolher entre banho ou jantar e, na maioria das vezes, decidia pela primeira opção e comia algum lanche na faculdade.

Incrivelmente jovens e cheios de vigor físico, eles certamente eram desejados por meninas como ela. Sempre muito dispostos nas baladas, nas festas de faculdades – as quais eles iam para conhecer as garotas universitárias, nos churrascos com amigos e nos bares da cidade, mas para ela, eles eram, simplesmente, os meninos que não faziam nada.

A cada dia ela conquistava um pedacinho daquilo que almejava e, em troca, acumulava compromissos que invadiam sua vida pessoal. Do trabalho para o inglês. Do inglês para a faculdade. Do trabalho para a academia. Do trabalho para a pós-graduação. Do novo emprego para o curso de extensão. Das viagens de negócios para os eventos da empresa...

E a cada trajeto, diariamente, ano após ano, lá estavam eles, exibindo seus corpos e brincando com a ociosidade. A impressão que ela tinha era de que aqueles garotos não ofereciam nada para a vida, mas também não acumulavam as frustrações de esperar por alguma coisa dela.

Em muitos momentos, naqueles dias em que o cansaço físico e mental invadia a sua alma, ela chegou a desejar não fazer nada, como aqueles meninos...

Mas logo pensou que mesmo que não estivesse fazendo nada, ainda assim, faria alguma coisa. Iria ler bons livros, daqueles que te levam pra conhecer lugares, pessoas, histórias e culturas, sem você nunca ter saído de casa. Ela iria caminhar no parque, subir nas árvores e comer fruta do pé. Ela faria algum trabalho voluntário e se deliciaria com o sorriso de alguém. Certamente ela desejaria aprender alguma coisa nova e ensinar algo a alguém. Ficar parada em um ponto de ônibus, para ela, só se fosse pra pegar a estrada e conhecer o mundo.

Um comentário:

.ju das candongas. disse...

Lindo!!! Lindo e intimo.. achei intimo.. muito bonito mesmo!
Triste ver que o mundo anda.. e tem gente que não caminha com ele.
Saudades.
Beijos.
.ju.