27 de abr. de 2009

Sempre ele


Era início de verão, a menina e sua irmã mais velha resolveram fazer exame médico para frequentar a piscina do Centro Comunitário do bairro. Chegando ao local, foram surpreendidas por uma fila de pessoas com a mesma intenção. A irmã logo encontrou suas amigas de escola e nem percebeu o tempo passar. Já a menina, naquele dia, estranhamente não queria falar com ninguém. Tudo bem que ela não era tão popular quanto a irmã. Sua vida era preenchida por seletivas amizades, contadas nos dedos de uma única mão. Mas aquele dia estava diferente. Ao seu redor, vários diálogos se cruzavam e ela, alheia a tudo, parecia viver em um mundo sem som.

A única sensação que despertou seus sentidos foi a puxada de sua irmã que a pegou pelo braço levando-a à sala ao lado, para o início do exame. Várias meninas aglomeravam-se aguardando o atendimento. O médico era ligeiro, talvez precisasse terminar logo os exames para atender algum caso no hospital, ou quem sabe tinha pacientes agendados em sua clínica, mas o fato era que ele nem olhava para o rosto das pessoas e levava menos de um minuto para concluir o exame.

Quando chegou a sua vez, o procedimento começou da mesma forma. Abria os dedos das mãos, depois os dedos dos pés, virava para mostrar a pele das costas e os cabelos e, ao final do exame, quando o médico ouviu seu coração, olhou pela primeira vez em seus olhos.

- Você tem algum problema cardíaco?
- Que eu saiba não.
- Já foi alguma vez ao cardiologista?
- Não.
- Então acho melhor você procurar um especialista o mais rápido possível. Detectei uma arritmia cardíaca, uma espécie de taquicardia. Você precisa ser tratada.

A notícia veio como uma bomba à família. A mãe chorava pelos cantos, sempre às escondidas, lembrando da tia Amélia que faleceu muito moça em razão de problemas no coração. A linda jovem que gostava de costurar e sempre sentava na primeira fila das missas aos domingos, tinha apenas 19 anos quando sentiu fortes dores no peito e faleceu em casa, sozinha, enquanto sua mãe corria na vizinhança em busca de socorro.

O pai da menina esforçava-se para não relacionar a suspeita de arritmia da filha com o triste fim de seu compadre Nelson, falecido há seis anos com complicações cardíacas, após contrair a doença de Chagas transmitida pelo inseto barbeiro. O falecido compadre nunca teve sorte na vida. Desde criança trabalhava na roça para ajudar a sustentar a família e aos 11 anos já era portador da doença. Há alguns anos, decidiu ter mais qualidade de vida no interior de São Paulo, fugindo das precárias condições de moradia e falta de saneamento básico do sertão de Goiás, porém, maltratado pela vida e consumido pela doença, não viveu mais que uma década na nova cidade. Pobre coitado!

A irmã era quem corria atrás de atendimento público para a menina. O posto de saúde do bairro onde moravam nem estava agendando consultas para esse semestre e a lista de espera, em caso de desistência, tinha mais adeptos que fila de cinema em dia de meia-entrada. Em casos como esse, vale a pena abusar da popularidade em defesa de uma causa maior. Foi o que fez a irmã, lembrou que a mãe de um amigo trabalhava no posto central e na semana seguinte conseguiu uma consulta com um Cardiologista, caso contrário, precisaria primeiro marcar com um Clínico Geral, aguardar alguns meses pelo atendimento, até que ele a encaminhasse para um Cardiologista, e aí, mais um chá de cadeira para a consulta com o especialista, sem falar na fila de espera para os exames clínicos.

Preocupada em agilizar o processo, a família reuniu dinheiro de parentes para pagar os exames. No retorno ao médico, com todos os documentos em mãos, a menina aguardava apreensiva pelo diagnóstico que poderia alterar todo o curso de sua vida. Enquanto folheava os relatórios dos exames, algumas páginas pareciam chamar a atenção do médico que, às vezes, pausava um pouco mais. Ao final do relatório o especialista olhou seriamente para a menina e questionou:

- O que você sente?
- Ah doutor nunca senti nada, mas de umas três semanas pra cá comecei a sentir meu coração acelerado, parece que vai sair pela boca. Minhas mãos estão sempre geladas. Perdi o apetite, não consigo comer nada e já emagreci uns três quilos. Também não consigo mais me concentrar nos estudos.
- Sei. Você tem namorado?
- Sim
- Vocês costumam brigar?
- Às vezes.
- Quando foi a última discussão?
- Na verdade, terminamos o namoro há três semanas.
- Pois é minha filha, seu coração funciona em perfeito estado, o que você tem é dor de amor, muito comum em jovenzinhas da sua idade.

E foi assim que a menina, no alto de seus 16 anos, sofreu pela primeira vez de uma dor que se repetiria em muitas outras fases de sua vida. Enquanto ela respirou, enquanto seu sangue correu em suas veias, enquanto sua vida fazia parte desse mundo, a menina, hora ou outra, era acamada por essa doce convalescença.

Ah o amor. Sempre ele.

18 de abr. de 2009

Amor em segredo


A amiga Amanda me emprestou um livro que eu gostei bastante “Amor em segredo – As histórias infiéis que aprendi com meu pai”, de Sonia Rodrigues, filha do aclamado escritor e dramaturgo Nelson Rodrigues. Com uma história de vida bem complexa, Sonia, uma irmã e um irmão são frutos de um relacionamento extraconjugal de Nelson Rodrigues que nunca assumiu oficialmente a paternidade.

O livro é praticamente uma autobiografia, em vários capítulos a autora comenta sobre a conturbada relação com os pais, uma mãe apaixonada e impulsiva e um pai omisso às dificuldades vividas pela família bastarda.

Gostei muito da forma como a autora descreve o amor e sua relação com esse sentimento. No capítulo intitulado “Fácil” Sonia escreve que só se interessa pelo amor que seja fácil, caloroso, generoso. “Para mim, ser intenso tem relação com facilidade. Ser fácil é muito gostoso.”

Sonia tem um estilo bem peculiar e deixa isso evidente ao revelar em seus textos os bastidores do ato de escrever e sua a relação com os personagens: “Fico feliz quando acerto a mão numa personagem como Bela, porque escrevê-la foi profético. Mal sabia eu que um ano depois eu precisaria aprender com a mulher de papel a repensar minha prática amorosa.”

Gostei do livro e recomendo!

10 de abr. de 2009

Presságios


Gente essa vida é mesmo cheia de mistérios. Semana passada, entrei pela primeira vez no blog do João Geraldo Lopes Gonçalves – o Janjão – ele escreve no http://www.jornalistas.blog.br/, onde também escrevo, e tive o prazer de ler um poema que ele criou inspirado em minha crônica “Tenho medo é dessa gente”.

O que achei interessante disso tudo é que já faz um tempo que vejo os textos dele no Jornalistas e nunca havia acessado seu blog, mas resolvo fazer isso justamente quando ele faz uma referência ao meu texto. Como escrevi pra ele, cada dia acredito mais na frase do personagem Shakesperiano – Hamlet – de que“Há mais mistérios entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia”. Adoro esses presságios!

Quanto ao poema de Janjão, vale a pena ser lido! Vai lá!

2 de abr. de 2009

Tenho medo é dessa gente


Em uma das viagens à praia, eu e uma amiga conhecemos um hippie, o Joãozinho. Um garoto bem jovem, de uns 22 anos, nascido no Rio de Janeiro, porém, como um hippie que se preze, ele era mesmo um cidadão do mundo.

De estatura pequena e um sorriso enorme que evidenciava dentes perfeitos (pra quem acha que hippie não escova os dentes, ele escovava, eu vi), Joãozinho foi o primeiro e único ser humano desconhecido que me pediu carona e eu dei. Estávamos em Ubatuba/SP e seguiríamos de carro até a Vila de Trindade, uma concentração de belíssimas praias localizadas em Paraty/RJ. Quando o jovem ficou sabendo de nosso destino, abriu um largo sorriso e pediu: – Ei garotas posso ir com vocês?

Eu e minha amiga trocamos olhares, tentando encontrar algum sinal de desaprovação uma na outra, mas como isso não aconteceu, logo estava Joãozinho, cujo nome ainda nem sabíamos, sentado no banco traseiro do meu carro, feliz da vida por estar indo àquele paraíso, ao encontro de seus semelhantes. Quem conhece Trindade sabe do que estou falando.

Tento até hoje entender o que me fez aceitar uma proposta tão insegura e cheguei à conclusão de que pessoas “diferentes” me passam mais confiança do que as “normais”. Também, no mundo em que vivemos, com tanta hipocrisia - estranho é ser normal.

É gente pregando isso e fazendo aquilo. Gente frustrada que não gosta do que faz, mas faz por necessidade. Gente que veste bata e “come criancinhas”. Gente que é eleita pelo povo e depois engana o próprio eleitor. Gente que esquece as promessas que fez. Gente que coloca filho no mundo, mas não pensa em preservar o planeta para as próximas gerações. Gente que abandona seu animal de estimação quando ele está velhinho e precisando de cuidados.

Tenho medo é dessa gente! Ela me confunde, me irrita, me enoja. Ainda mais quando vejo gente ensinando o filho a desprezar homossexual, a desrespeitar os avós em suas limitações físicas, a humilhar os mais pobres que não possuem os mesmos bens.

Vivo de medo é de gente que vai à igreja e prefere ver o mundo contaminado pelo vírus da AIDS a aceitar a propagação do uso de preservativos no combate à doença. Com Joãozinho aprendi que não pertenço ao grupo dos “normais”, sou mesmo é do lado dos “diferentes”.

E no final da viagem, para não perder contato com uma pessoa tão especial, minha amiga pediu o e-mail do jovem hippie. Com toda a espontaneidade de quem é acostumado à liberdade e desprendimento, o garoto explicou que o grande barato da vida é o acaso: - Um dia, se tivermos que nos encontrar novamente, certamente isso acontecerá.

E assim, o diferente seguiu seu caminho pelo mundo. Livre de preconceitos, de imposições e limitações. Carregando uma mochila com uma barraca, uma troca de roupa e muitas histórias vividas com gente estranha.