19 de jun de 2010

E a vida nasce na Rua Lázaro...


A Rua Lázaro Teodoro da Silva, daquele bairro novo, começou a receber seus primeiros moradores. Mesmo sem asfalto, várias casas estão sendo construídas e os vizinhos de ruas paralelas já começam a adotá-la como rota principal para as crianças irem à escola; para os trabalhadores pegarem o ônibus; para as mães levarem os filhos à creche ou para os fiéis seguirem à igreja mais próxima.

A Rua Lázaro Teodoro da Silva acabou de receber sua primeira árvore. A família Silva mudou há apenas uma semana e já mobilizou os vizinhos na escolha do tipo ideal de arbusto para a calçada. Daqueles que não quebram o chão, nem estouram o muro. O pequeno Gabriel, de seis anos, fez apenas uma exigência: “tem que ser árvore com flor” e essa característica foi a responsável pela escolha do Manacá da Serra, um arbusto de médio porte que ostenta lindas flores grandes e arredondadas. Com pétalas que mais parecem corações, a florada desabrocha na cor branca, depois muda pro tom de rosa e finalmente pode ser apreciada em uma tonalidade mais escura, na cor roxa. A iniciativa estimulou os outros vizinhos e, em pouco tempo, várias árvores começaram a ser plantadas. As crianças ficaram responsáveis em cuidar das árvores, daquele jeito de criança, regando e brincando com a água.

Um novo membro acabou de chegar à Rua Lázaro Teodoro da Silva. Os vizinhos o apelidaram de Soldadinho. Nem casa ele tem, vive ali, pelas calçadas, abrigando-se entre um muro e um carro estacionado na rua, mas já se sente o dono do pedaço. O coitado do carteiro levou um susto quando, distraído, ao colocar uma carta na caixinha do correio do seo Manoel, foi pego de surpresa pelos latidos desesperados do Soldadinho.

Mas não deve ter sido por acaso que o pequeno vira lata resolveu ficar por ali. A Rua Lázaro Teodoro da Silva é cheia de crianças e, todo final de tarde, quando chegam da escola os pequenos se reúnem em frente à casa da tia Jandira - ponto de encontro da garotada – para dar início às brincadeiras de rua e, claro, alimentar o Soldadinho.

Quando, exaustos de tanto brincar de mãe de rua, queimada e taco, os pequenos se amontoam na varanda do seo Chico pra ouvir umas estórias esquisitas que ele garante que aconteceram na roça, lá nas bandas de Minas Gerais. Os contos falam de cavalos que sumiam em disparada nas estradas de chão, ao se depararem com espíritos e jovens moças que davam fim à vida depois de uma desilusão amorosa. As crianças morrem de medo das estórias, mas insistem em ouvi-las quase todos os dias.

Timidamente, o progresso começou a dar o ar da graça na Rua Lázaro Teodoro da Silva. Com planos de comprar o primeiro carro da família, Márcia aproveitou o espaço inutilizado da garagem e instalou ali três computadores, apresentando aos moradores a primeira Lan House do bairro. Em um lugar improvisado, os computadores foram montados em mesas plásticas, daquelas de festa. Curiosos sobre a função daquele novo estabelecimento, os vizinhos foram chegando, perguntando, mexendo e, em poucas semanas, a Lan House estava repleta de clientes. Os adultos ainda não entenderam direito o que fazer com aquilo, mas as crianças, que já viram computadores na escola, ainda nem tiveram aulas de computação, mas como nasceram na era da informática aprenderam rapidinho sua utilidade.

A conversa agora, na Rua Lázaro Teodoro da Silva, só gira em torno de uma moradora diferente que mudou para lá. As crianças não entendem como uma menina de nove anos não consegue andar com as próprias pernas e precisa se locomover com uma cadeira com duas rodas bem grandes. Os pais também não conheciam nenhuma criança nessa situação, mas explicaram aos filhos que provavelmente ela teria alguma deficiência que a impedia de andar. Aos poucos, as crianças foram se aproximando de Janaina que, inicialmente parecia bastante tímida, mas depois se mostrou a mais falante de todas as meninas do bairro.

Curiosas, as crianças queriam entender como Janaina fazia para se locomover dentro de casa com uma cadeira de rodas. Foi aí que conheceram a casa da menina e viram que ela tem portas mais largas e algumas coisas são mais baixas, para facilitar seu acesso. A partir desse momento, muitas coisas mudaram na Rua Lázaro Teodoro da Silva. Enquanto a rua ainda não tinha rampas de acesso para deficientes, as crianças solicitaram que os moradores deixassem os carros fora das rampas da garagem para facilitar a acessibilidade de Janaina pela rua. As brincadeiras quase não foram alteradas, porque as crianças perceberam que a menina não era tão diferente assim e, mesmo em uma cadeira de rodas, participava de tudo como toda criança feliz.

Certamente, na Rua Lázaro Teodoro da Silva, haverá um pai que deitará todas as tardes com sua filhinha no sofá e cantará para ela repentes e poesias musicadas. Aos domingos, esse pai levará a menina no campo de futebol para juntos assistirem ao jogo do seu time preferido. Aos sete anos, a menina ainda não deve entender muito de futebol, mas além de adorar a companhia do pai, nunca dispensará o delicioso sorvete a que tem direito. Nos anos seguintes, já na adolescência e juventude, aos domingos, enquanto a mãe e as irmãs conversarão na cozinha, a menina, que já será uma moça, irá preferir assistir ao jogo de futebol deitada no sofá, na deliciosa e insubstituível companhia do pai.

* Texto dedicado ao meu pai, Lázaro Teodoro da Silva, falecido em 1º de julho de 2004.

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